Relatório de Campo da Travessia da Ilha do Bananal de Bike 2013
Por Andre Matsubara
O presente relatório tem como objetivo retratar a quarta edição do evento “Travessia da Ilha do Bananal de Bike”, realizado entre os dias 25 a 29 de julho de 2013, na Terra Indígena Parque do Araguaia, município de Formoso do Araguaia, Tocantins, que contou com a participação dos servidores André Takeshi Matsubara, indigenista especializado lotado na Coordenação Regional Araguaia-Tocantins, que acompanhou o grupo de ciclistas em bicicleta própria, e Valter Pereira de Alvarenga, motorista lotado na Coordenação Técnica Local de Gurupi, responsáveis pela elaboração do presente relatório e prestação de apoio logístico ao evento, respectivamente.
Como o nome sugere, o principal objetivo do evento é a realização do cicloturismo, modalidade de turismo na qual se utiliza a bicicleta como principal meio de locomoção, na Ilha do Bananal, maior Ilha Fluvial do mundo, composta por três Terras Indígenas (T.I. Inywebohony, T.I. Parque do Araguaia e T.I. Utaria Wyhyna) e uma Unidade de Conservação Federal (Parque Nacional do Araguaia), que abrigam uma riquíssima biodiversidade, compondo um ecótono com características dos Biomas Amazônia, Cerrado e Pantanal.
No ato de inscrição, os cicloturistas são informados das dificuldades e possível sofrimento físico e emocional que podem enfrentar. Também preenchem um formulário e recebem orientações gerais, dentre as quais a obrigatoriedade de utilização de equipamento de proteção e reservatório de água camelback. É cobrada uma taxa de R$ 350,00 por ciclista pela organização do evento. Parte do recurso levantado é utilizado na logística do evento, com a locação de veículos, aquisição de alimentação e locação de estadia para o grupo.
A Travessia
O percurso realizado pelos cicloturistas consiste em uma antiga estrada não pavimentada que atravessa a Ilha no sentido leste-oeste, tendo início às margens do rio Javaé, na aldeia Imotxi e terminando às margens do rio Araguaia, na Aldeia Santa Isabel. Na ida, os participantes chegam de ônibus vindo de Palmas e descem na fazenda Sinobi, ainda do outro lado do rio Javaé, fora da Ilha, onde iniciam a pedalada de um trecho de aproximadamente 15 km até chegarem à sede da fazenda, às margens do rio. No local, juntam-se ao grupo os demais participantes que optaram por ir em veículos próprios e é servido o café da manhã.
Após o desjejum, os ciclistas atravessam o rio Javaé, levando as bicicletas nos ombros, e iniciam a travessia da Ilha, por volta das 09:30 horas, passando pela aldeia Imotxi.
Após transpor o rio Javaés, passando pela aldeia Imotxi, começa o percurso oficial da travessia da Ilha, que pode ser dividido em 06 trechos:
Trecho 01 – Aldeia Imotxi até rio Riozinho (40 km) – O grupo almoça e recarrega suas Camelbacks na margem do Riozinho;
Trecho 02 – Riozinho até rio Jaburu (11 km);
Trecho 03 – Rio Jaburu até rio 24 (15 km);
Trecho 04 – Rio 24 até rio 23 (13 km);
Trecho 05 – Rio 23 até Aldeia Santa Isabel (14 km);
O relevo da Ilha é predominantemente plano, no entanto, o maior desafio para o ciclista é enfrentar diferentes tipos de terreno, desde um extenso varjão, muito pisoteado pelo gado, com muitos buracos e “costelas de vaca” no trecho 01, até terrenos arenosos nos trechos finais, sendo que a maior parte do percurso é feita sob forte sol, uma vez que a fitofisionomia predominante é característica de cerrado campo sujo, dominada por gramíneas nativas e árvores esparsas, fornecendo raros e preciosos locais de descanso protegidos da radiação solar e do calor tocantinense.
Após o primeiro trecho, o grupo se reúne, às margens do rio Riozinho para almoçar e recarregar as mochilas camelback de água. A água mineral fornecida estava condicionada em embalagens pet de 1,5 litro e o almoço foi servido em pratos descartáveis. Todo o lixo seco foi recolhido e transportado no trator e os cicloturistas, orientados a não deixarem nenhum tipo de resíduo na Ilha. Algum resíduo foi encontrado na estrada, na maioria resíduos de alimentos e bebidas, cuja origem é incerta, devido ao fluxo de várias caravanas pela via.
A equipe de apoio aos cicloturistas era formada por um trator locado com carreta acoplada, uma moto de trilha particular e um veículo caminhonete Ranger oficial da FUNAI, cada veículo com seu respectivo condutor, além de um mecânico e um guia indígena, conhecido como Zé Galinha. Durante o percurso, a moto fazia a comunicação com a caminhonete, que seguia à frente, e o trator, que seguia atrás do grupo de ciclistas, além de prestar apoio, no caso de emergências. Tanto a caminhonete quanto o trator transportavam água para distribuir entre os ciclistas.
Todos os rios no interior da Ilha são transpostos da mesma maneira: o ciclista levando a bicicleta nos ombros. Os veículos cruzavam os rios sem maiores problemas, não havendo a necessidade de serem desatolados ou guinchados. Porém, no trecho de volta, o trator quebrou, prejudicando a logística da travessia. Diante dessa situação as bagagens dos ciclistas, que estavam no trator, foram transferidas para a caminhonete, de forma que os mesmos pudessem ir embora, tendo em vista que os reparos no trator só foram feitos no dia seguinte.
São Félix do Araguaia
Após finalizarem o percurso de ida da Travessia da Ilha, os ciclistas atravessam o rio Araguaia, em uma balsa fretada, da aldeia Santa Isabel até o município de São Félix do Araguaia, onde se hospedam, durante os dois dias que permanecem na cidade, em um local conhecido como “Prelazia”, de frente para a orla da cidade, ponto turístico no qual se concentram os indígenas e turistas.
Durante o mês de julho ocorre a alta temporada das praias fluviais dos principais rios da região Norte do Brasil. Uma tradição indígena, surgida da celebração da alta piscosidade nos meses de julho e agosto, que a cultura não indígena local assimilou, sobretudo por coincidir com o período das férias escolares.
Além da orla, outro lugar muito frequentado no período é a Praia do Morro, localizada a aproximadamente um quilômetro do centro de São Félix do Araguaia, onde a prefeitura organiza uma estrutura para a recepção dos turistas e comerciantes da região montam suas barracas para a venda de bebidas e alimentos. Durante o final de semana ocorrem vários shows de grupos musicais populares entre os locais, principalmente sertanejo, forró e tecnobrega.
As ações sociais com a comunidade indígena de doação de roupas, brinquedos, material de higiene bucal e palestra de saúde bucal são realizados na praia do Morro, ao final da tarde, quando há uma grande concentração de turistas e indígenas, próximo e paralelamente aos shows musicais, o que acaba por prejudicar a comunicação com os indígenas, devido à intensa poluição sonora provocada pelas caixas de som do palco onde ocorrem os shows, predominando o caráter assistencial da intervenção.
Nos últimos anos foram registrados muitos casos de suicídio entre jovens indígenas das aldeias Karajá, revelando uma preocupante situação de crise de cultura e de identidade entre essa juventude abalada e dividida entre duas realidades, o mundo indígena e o mundo do “branco”, dos quais não podem se apropriar e viver de forma plena.
Organização
O evento é organizado desde 2010 por Jair Júnior Parriul, ciclista e professor universitário residente em Palmas, com o apoio de várias instituições públicas e privadas.
Segundo Parriul, os cicloturistas buscam na travessia uma experiência única de pedalar em um ambiente natural onde poucas pessoas pedalaram, em contato com os indígenas, sendo uma de suas preocupações orientar aos ciclistas para que não deixem resíduos sólidos na ilha.
RELATÓRIO REPRODUZIDO PARCIALMENTE




